A Viabilidade da Metapolítica – Esotericist
Metapolítica, no sentido que usamos a palavra aqui, refere-se à atividade de propagar ideias e atitudes, a fim de afetar a realidade política no longo prazo. Isso pode envolver a publicação de livros, o uso de podcasts, blogs, ou qualquer outra mídia pela qual ideias possam ser comunicadas. Talvez a figura de esquerda mais influente na teoria da metapolítica é Antonio Gramsci, um líder comunista italiano que escreveu uma série de cadernos enquanto estava preso pelo regime fascista nos anos de 1920 e 30 na qual ele escreveu ideias que seriam adotadas tanto pela esquerda quanto pela direita. Uma das ideias centrais do Gramsci era que o sistema capitalista só se tornou mais consolidado ao decorrer do tempo pois os valores e ideias capitalistas burgueses se tornaram hegemônicos – isto é, a sociedade estava tão mergulhada neles que eles eram vistos como senso comum. Esses valores providenciaram o fundamento pré-política do poder capitalista. Se seguiu dessa teoria que os comunistas teriam que engajar na metapolítica para alcançar sua própria hegemonia cultural e, portanto, providenciar o fundamento para derrubar o capitalismo.
Na metade posterior do século XX, os trabalhos de Gramsci começaram a ser lidos por pensadores da direita radical, particularmente a Nouvelle Droite na França e a Neue Rechte na Alemanha. Subsequentemente, direitistas em outros países começaram a focar na metapolítica também. Em algum ponto, uma crença surgiu que a metapolítica era o aspecto mais importante da estratégia da direita radical. O motivo para esta ênfase na metapolítica deriva-se largamente na crença que o sucesso da esquerda significa que alguma coisa precisa ser aprendida deles. Em particular, a esquerda manteve a hegemonia cultural e intelectual, e então os meios pelos quais eles fizeram isso devem ser estudados. Acadêmicos, cientistas, jornalistas, e intelectuais públicos tendem a ter um viés esquerdista. Isto é bastante útil para governos e ONGs que visam justificar suas políticas, já que eles podem apontar para um consenso de “experts” que concordam com eles. Parece, então, que a cultura e a hegemonia cultural é importante para adquirir e manter poder, e a metapolítica é a atividade que visa alcançar tal hegemonia. Portanto, direitistas começaram a se perguntar: se a esquerda usou a metapolítica para adquirir poder, então por quê a direita não pode fazer o mesmo?
A ideia de estudar os oponentes (que têm sido inegavelmente bem-sucedidos) para desenvolver nossa própria prática é útil, e eu a apoio. No entanto, eu busco aqui lançar algumas dúvidas na nossa confiança na metapolítica.
No coração da metapolítica está o pressuposto que mudar as crenças das pessoas levará a uma mudança em seus comportamentos; portanto, se conseguirmos que as pessoas compartilhem nossas crenças, isso necessariamente avançará nossos objetivos finais. Existem duas razões para eu questionar isso.
Primeiro, alguém compartilhar nossas ideias não é uma condição suficiente para eles exibirem o comportamento necessário para o avanço da nossa visão de mundo e dos fins que ela estabelece. Vemos isso com pessoas que professam nossas ideias mas não fazem nada para promover o estilo de vida associado com elas: elas não têm crianças, elas não estabelecem comunidades, etc. Segundo, alguém compartilhar suas ideias não é uma condição necessária para avanços nossos fins também. Por exemplo, esquerdistas que acreditam fortemente no antinatalismo tenderão a não ter crianças ou tê-las em um número bem pequeno, e diminuirão com o passar do tempo. Na medida em que isso resultaria na destruição da base biológica do esquerdismo, isso avançaria nossos fins.
Veja que em ambos os casos, eu enfatizo o comportamento. O comportamento que realmente importa, pois somente pensamentos não mudarão o mundo.
Mas vamos supor que o pressuposto por trás da abordagem metapolítica é verdadeiro. Mesmo se propagar nossas ideias fosse o suficiente para mudar o comportamento das pessoas, isso não pode ser feito sem poder institucional. Adquirir hegemonia intelectual e cultural dentro de nossos países necessitaria de um grande número de think tanks, editores, e outros veículos de mídia, e estes teriam que ser suficientemente numerosos e influentes para serem capazes de rivalizar com seus equivalentes mainstream. Atualmente, isso parece um pouco implausível. O poder de mídia da direita radical é ofuscado pela mídia mainstream. A situação torna-se mais difícil pelo fato que não há “livre-mercado de ideias”. Nossas ideias estão em uma situação desigual com os oponentes, não importa quão atraente sejam intelectualmente nossos argumentos, pois as pessoas não são completamente racionais. Elas muitas vezes professam ideias, não com base em convicção intelectual real, mas porque seus interesses estão ligados a propagação dessas ideias, seja porque eles simplesmente não poderiam sobreviver sobre qualquer outro sistema, ou porque eles são covardes e temem o custo de discordar, ou porque eles são diretamente empregados pelo sistema.
Naturalmente, eu não estou dizendo que a metapolítica é inútil, ou que ela deve ser abandonada. No entanto, não podemos ignorar o fato que a direita radical na Europa pelo menos tem tido geralmente muito pouco apoio de capital financeiro. Na medida em que uma metapolítica efetiva precisa da criação de instituições que possam espalhar nossas ideias, e essas instituições precisam ser compostas por teóricos profissionais e propagandistas que podem se devotar completamente a essa atividade, precisamos de dinheiro. Esses veículos teóricos e de propaganda provavelmente terão margens de lucro reduzidas, se eles tiveram lucro – e seus custos serão significativos. O financiamento precisa vir de algum lugar. Nem inúmeras pequenas doações de indivíduos da direita radical, nem grandes doações de indivíduos ricos serão suficiente para financiar um empreendimento na escala necessária: a primeira, porque a audiência da direita radical existente será muito pequena, e doações são muito pouco confiáveis; a última, porque poucos indivíduos ricos quererão ser vistos como associados com a direita radical, até o tempo que suas crenças sujam suficientemente normalizadas e aparecerem como uma alternativa viável ao sistema presente – que por si só necessitaria da existência de uma grande rede de instituições que precisam de financiamento em primeiro lugar.
Além disso, como eu apontei acima, o sucesso do movimento será dependente, não só na habilidade de convencer as pessoas de suas ideias, mas também de sua habilidade de vincular os interesses das pessoas com seu sucesso. Em adição a provar que estamos certos, temos que oferecer às pessoas alguma vantagem tangível para se envolver, em vez de sacrifício puro. Isso consistiria primariamente de incentivos econômicos (providenciando um benefício) e a habilidade de se proteger dos efeitos negativos da associação com nós (minimizar os custos). Mais uma vez, isso depende de termos financiamento suficiente.
A direita radical necessita da sua própria classe de empresários e captadores de recurso [fundraisers] que possam providenciar o capital necessário para perseguir objetivos metapolíticos e outros fins na escala apropriada. Até lá, continuaremos em um pequeno grupo com pouco ou nenhum poder de fazer mudanças práticas na política. Principalmente, essa classe não precisa fazer dinheiro via negócios políticos explicitamente. De fato, provavelmente seria desvantajoso tentar fazer isso, já que atrairia atenção indesejada para esses negócios: boicotes, perseguição, retirada de investimento, etc. Em algum momento no futuro, eu expandirei essa ideia e apresentarei propostas mais concretas. Por agora, isso deve ser suficiente.
Notas Finais:
Artigo: https://esotericist.substack.com/p/the-viability-of-metapolitics