Indivíduos, Instituições, Interpretações: Hermenêutica Aplicada a Economia – David Gordon
O livro já tem um mal começo. O editor, David L. Prychitko, arduamente apoia um tipo particular de teoria interpretativa, hermenêutica, particularmente a desenvolvida pelo Hans-Georg Gadamer e Paul Ricoeur. O uso dessa teoria, Prychitko pensa, pode muito bem desenvolver a economia Austríaca, uma tese que ele e seus colaboradores esforçam-se para defender no corpo do livro.
O trabalho é dividido em três partes. A Parte Um contém ensaios sobre individualismo metodológico, a chave principal da economia Austríaca. “A Parte Dois explora os problemas metodológicos de interpretar as ações individuais e o jeito que os planos das pessoas são integrados com a ordem socioinstitucional… A Parte Três aplica a economia interpretativa para a natureza da ordem de mercado” (pp. 4-5).
Leitores do The Mises Review podem recordar que eu não compartilho completamente o entusiasmo com os editores pela sua amada nova teoria interpretativa. Mas não é porquê ele advoga por uma hermenêutica que eu falei que seu livro tem um mal começo (embora isto tenha ajudado). O problema é mais o jeito um pouco extraordinário que Prychitko vai além do evidenciável em muitos dos seus comentários.
Ele afirma: “Mises estabelece uma base fenomenológica para a economia austríaca já na década de 20, que foi cuidadosamente escrito em sua coleção de escritos em 1933, Epistemological Problems of Economics, e depois desenvolvidos em seu magnum opus de 1949, Human Action: A Treatise on Economics” (pp. 2-3).
Como diria Herbert Hoover, vamos citar uma estatística poderosa. Prychitko mencionou duas obras principais de Mises. O número total de referência nesses dois livros ao Edmund Husserl, o criador e o principal desenvolvedor da fenomenologia, é um. Alfred Schutz, estudante de Mises e pioneiro no uso da fenomenologia nas ciências sociais, é citado duas vezes em Human Action, uma vez pelo mesmo ponto do Husserl.
Eu não sugiro que não há paralelos entre economia Austríaca e fenomenologia. Mises usa a frase “método de livre variação imaginária”, também aplicado por Husserl, certamente merece investigação nesse contexto, como vários outros tópicos. Mas o que me preocupa não é esse problema do Mises e fenomenologia. É, ao invés disso, a irresponsabilidade que Prychitko afirma sua reivindicação na ausência de evidência textual.
De novo, Prychitko comenta: “Mises teve o apoio de filósofos hermenêuticos peso-pesado, como Henri Bergson, R.G. Collingwood, Benedetto Croce, Wilhelm Dilthey, and Edmund Husserl” (p. 3). Vamos olhar Mises agora: “Resguardando a praxiologia os erros dos filósofos são por causa da sua completa ignorância da economia.” Mises aqui acrescente uma nota de rodapé, que afirma: “Dificilmente um filósofo teve mais familiaridade universal com vários setores do conhecimento contemporâneo que Bergson. Entretanto uma rápida lida em seu último ótimo livro claramente demonstra que Bergson era completamente ignorante no teorema fundamental da teoria moderna de teoria de valor e troca.” (Human Action, New Haven, 1963, pp. 32-33).
Outra vez, eu não considero esta citação como solução para a questão da influência. Mas quando Mises se esforça para enfatizar a ignorância dos filósofos sobre a economia, é o cúmulo da estúpida ignorância tratar como incontroverso que Mises foi influenciado por eles quando ele desenvolveu suas visões sobre os fundamentos dessa disciplina.
Felizmente, muitas coisas do livro são melhor do que esta introdução. A primeira seção, sobre individualismo metodológico, é uma leitura que vale a pena. Peter Boettke de maneira convincente mostra que Geoffrey Hodgson tem uma visão falaciosa, “atomística” do método austríaco. A economia Austríaca não assume que indivíduos tem preferências fixas, imunes à influência mútua. Pelo contrário, a abordagem Austríaca enfatiza a intersubjetividade, um ponto que Prychitko também habilmente utiliza contra Steven Lukes e Michael Simon. “Se nossos objetivos como cientistas sociais é entender a ação humana, então a consciência individual deve ter prioridade. E talvez a melhor defesa é que isso funciona” (p. 13).
Mas num ponto os papers dessa seção me parecem seriamente incompletas. Boettke e Prychitko, e assim como Gary Madson em seu interessante paper sobre Hayek, corretamente enfatizam a intersubjetividade em suas descrições da posição Austríaca. Contudo pelo menos o primeiro dos dois autores parece assumir que esse ponto é suficiente para refutar a reivindicação de coletivistas metodológicos, ou holistas, que pelo menos alguns fatos sociais não podem ser totalmente explicados referenciados à ação individual. Os escritos de Boettke e Prychitko sofrem de uma “dieta insuficiente” de exemplos. Filósofos como Alan Garfinkel e Maurice Mandelbaum tem avançado bem mais sofisticadamente defesas do holismo do que as falácias grosseiras que nossos autores desmascaram. Eu arrisco sugerir que eles iriam achar, em particular, On Social Facts de Margaret Gilbert uma noz difícil de quebrar.
Em reviews anteriores, eu tenho de tempos em tempos tido algumas leves palavras de repreensão para Don Lavoie. Seu ensaio na presente coleção, “The Market as a Procedure for the Discovery and Conveyance of Inarticulate Knowledge” me parece melhor do que os seus ensaio Elgar Companion e The Market Process. Seu argumento falha, porém pelo menos ele não cai de cara no chão.
Talvez a chave para seu relativo sucesso esteja sob o fato que muito dos seus ensaios são sobre economia, um assunto que, em contraste com a filosofia, ele conhece alguma coisa. Em seu ensaio, Lavoie considera uma tentativa de muitos economistas socialistas de mercados de driblar o argumento de Mises-Hayek do cálculo econômico. Em resposta à alegação que um Conselho de Planejamento Central não pode reunir as informações relevantes necessárias para guiar uma economia complexa, Leonid Hurwicz e outros “desenvolverem processos que assuem que o conhecimento disponível para cada participante é estritamente localizado” (p. 121).
Nesses esquemas, gerentes de fábricas falam ao Conselho de Planejamento Central quanto eles deveriam produzir, e com quais técnicas, com vários preços. O CPC, usando técnicas matemáticas complexas, pode usar a informação que ele obtém das firmas para gerir um conjunto de preços eficientes.
Eu considero a descrição de Lavoie sobre o modelo socialista de mercado clara e informativa. Mas de novo o apelo a filosofia estraga o que poderia ser um excelente paper. Em resposta para os modelos descritos, Lavoie apela ao conhecimento tácito ou inarticulável. Pessoas muitas vezes possuem conhecimentos que elas não conseguem expressar em palavras: sabem como dirigir um carro, ou como andar, sem serem capazes de declarar as regras complicadas que as suas ações seguem.
Lavoie usa o conhecimento tácito para responder os socialistas de mercado por esse caminho: “o gerentes de fábricas precisa ser apto de dizer qual produção técnica, incluindo quantidades específicas de todos os inputs necessários, ele irá usar para qualquer configuração ou tentativa de preços sugerida por ele em cada interação do diálogo. Eu não acho que o planejador central conseguirá fazer isso” (p. 123).
Infelizmente, Lavoie não oferece nenhuma razão para sua afirmação. Socialistas de mercado dificilmente estarão inclinados a aceitar sua visão das habilidades dos gerentes de fábrica com base em sua mera palavra. Com certeza Lavoie normalmente teria notado um buraco tão óbvio em seu argumento. O que eu sugiro que ocorreu é que ele estava tão fascinado por sua ideia filosófica favorita, ensinada por Michael Polanyi e Hayek, que ele acha que simplesmente invocar ela basta para fazer bom seu argumento. Somente falar “conhecimento tácito” três vezes, o mais rápido que você poder, e você pode dar adeus ao socialismo.
Quais quer sejam suas falhas, o ensaio do Professor Lavoie é uma verdadeira obra-prima quando comparado com “Ludwig Lachmann e a virada interpretativa na economia: uma investigação crítica sobre a hermenêutica do plano”, do nosso velho amigo David Prychitko. Esse ensaio, em seu último que considerarei, é um modelo de como não prosseguir com um argumento filosófico
Prychitko elogia Ludwig Lachmann como o pionero na aplicação da hermenêutica na economia. “Porque economia é (ou deveria ser) uma ciência que busca tornar o mundo social inteligível por referência a ações guiadas por planos, Lachmann afirma que economia é uma única, talvez até uma invejosa [sic] posição, comparada com as ciências naturais” (p. 95) Na tentativa de entender os planos individuais, o economista deve agir como um estudante interpretando um texto. Assim como um leitor tenta discernir o que o autor quer dizer, o cientista social tenta entender as ações humanas discernindo os planos que fundamentam elas.
Embora elogie os esforços de Lachmann, Prychitko os considera insuficiente. Lachmann encontrou dificuldades em explicar as consequências não-intencionais da ação. Como ele poderia lidar com os resultados não planejados da ação, quando seu método de interpretação confina-o para os planos mentais dos agentes?
O erro de Lachmann é resultado dele recorrer de uma hermenêutica ultrapassada. Em contraste com a hermenêutica clássica de Dilthey, que Lachmann dependia, “a hermenêutica fenomenológica de Hans-Gerog Gadamer e Paul Ricoeur argumenta que … resultado não reside na intenção original do autor ou agente. Resultado, para eles, é uma relação mútua entre estudiosos e o agente histórico sob observação” (p. 99). Dado que a nova teoria não equivale resultado com a intenção original, é bem melhor equiparar com as consequências não-intencionais. Aqui está a salvação para a escola austríaca.
Se o relato de interpretação de Gadamer está correto não é uma questão que eu posso discutir agora. A meu ver não está, mas não vem ao caso. Em vez disso, a dificuldade para Prychitko é que ele falhou completamente em dar qualquer razão para que a posição de Gadamer deveria ser aceita como um relato de interpretação textual. Lavoie assumiu uma premissa controversa sem suporte. Prychitko nos pede para aceitar um sistema filosófico inteiro pela fé.
Embora eu não posso realisticamente esperar que um acadêmico tão ilustre leve em conta meus comentários, eu ainda assim gostaria que ele abordasse esse ponto em algum lugar: e daí que Gadamer diz a, b e c. Por que isso é uma razão para qualquer um apoiar a, b e c? Prychitko parece completamente desprovido de qualquer concepção do que consiste um argumento filosófico: ele acha que um breve relato das opiniões de alguém é suficiente para defendê-las. Não é.